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Notas a 1 de Dezembro de 2009 (activação do Tratado de Lisboa)
*Na segunda parte de um artigo de reflexão sobre a Europa, Gerner, filósofo e encenador residente em Lisboa, questiona sobre os valores da UE.
Ler primeira parte do artigo aqui
http://www.beinternacional.eu/index.php/the-week/177-visoes-da-europa

Europa desenhada de memória, por Hache
Nós, cidadãos do mundo
"Cosmos (world) in cosmopolitan originally meant simply “order” or “adornment”
—as in cosmetics—and was only later extended metaphorically to refer to “the
world.” Cosmetics preceded totality." (Robbins 1992, “Comparative Cosmopolitanisms”, Social Text 31/32, p.176)
Deve a UE espalhar seus valores ao resto do mundo? E como? Tenho dúvidas de que a UE tenha valores claros e explícitos, se não mesmo valores cosméticos que impliquem uma busca por acção cosmopolita. Mas estes valores e ideais têm de ser debatidos de forma mais aberta. Como esses valores devem ser aplicados na prática, aptos para estabilizar a paz no mundo fazer crescer a responsabilidade e distribuir a riqueza de uma forma um pouco além das fronteiras da UE é uma grande tarefa do futuro.
A ideia de o cosmopolitismo ser não apenas um homem ou uma mulher de Atenas, nem da Grécia, mas ser um cidadão do mundo, é um belo ideal, mas para torná-lo real significa que a UE não pode ser apenas responsável pelo seu próprio povo: tem que lutar contra a injustiça social e económica, assim como tem de lidar criativamente com a imigração e assumir responsabilidades perante as partes mais pobres do mundo. O financiamento da UE para todos estes problemas não é suficiente. A vontade política para investir na Europa em grande escala ainda é muito baixa. Esta com certeza é uma tarefa difícil e implica haver mais pessoas nas tarefas que a UE tem de gerir. Bruxelas está ainda muito longe da vida de povos. Ninguém na minha lista de amigos no Facebook – cerca de 500 – postou fosse o que fosse sobre o Tratado de Lisboa. As pessoas com quem falei ou forcei para comentar sobre o Tratado da UE disseram "qual tratado?". E mesmo um parlamentar europeu publicou que quase se esqueceu do Tratado de Lisboa porque estava muito cheio de trabalho. Más notícias para a Europa! Porque é falta de visão! As pessoas estão fartas da UE cosmética e isso tem que mudar, porque em breve o caminho diplomático para evitar qualquer conflito praticamente deixará de funcionar. É bom ter uma boa diplomacia, mas não é suficiente.
Diria mesmo que um imposto europeu poderia servir para investir exclusivamente no interior de cada um dos países membros, onde projectos da UE possam ser desenvolvidos em níveis mais básicos, locais, especialmente em termos de participação cultural e social. Porque não um sistema fiscal em que as pessoas decidem, pelo menos, 10% sobre onde querem ver o seu dinheiro investido no seu estado? Claro que a UE não é apenas sobre o dinheiro, ainda que tenhamos de ser convencidos por isso, e nem pode ser um bastião rico ou uma gaiola de ouro com uma “parede Lisboa" em torno das suas fronteiras. A concretização de como lidar com a imigração e multiplicidades de culturas, línguas e as convicções e os modos de vida é um campo ainda mais complexo do que falar de implantação de medidas de "integração". A integração novamente supõe uma base comum de valores e deve ser argumentada a partir de um ponto de vista ontológico para se saber dos valores de que se falam. Eu ainda quero saber quais são esses valores! Não é fácil compreender como a evolução histórica dos direitos e da liberdade – diga-se, da liberdade religiosa –tinha de ser travada em mais do que apenas uma guerra de 30 anos. Os processos de longo prazo de secularização e a relativa aquisição de modelos científicos de explicações do mundo contra as visões de mundo mutuamente religiosas podem sobreviver e fazer com que as pessoas vivam juntas, sem violência. Não se pode pensar que a condenação seja forçada pelo poder, mesmo que pareça muito mais viável e simples.
A necessidade de um novo papel dos EUA numa nova ordem mundial.
De imperialismo cosmopolita a cooperativismo cosmopolita?
"Reorganizing the world order will need to extend beyond the financial system and involve the United Nations, especially Security Council membership. That process needs to be initiated by the U.S., but China and other developing countries ought to participate as equals. They are reluctant members of Bretton Woods institutions, dominated by countries no longer dominant economically. The rising powers must be present at the creation of this new system to ensure that they will be active supporters.
The system cannot survive in its present form, and the U.S. has more to lose by not being in the forefront of reforming it. The U.S. is still in a position to lead the world, but without farsighted leadership, its relative position is likely to continue to erode. It can no longer impose its will on others, as George W. Bush's administration sought to do, but it could lead a cooperative effort to involve both the developed and the developing world, thereby re-establishing American leadership in an acceptable form.
The alternative is frightening, because a declining superpower losing both political and economic dominance but still preserving military supremacy is a dangerous mix.
We used to be reassured by the generalization that democratic countries seek peace. After the Bush presidency, that rule no longer holds, if it ever did. In fact, democracy is in deep trouble in America. The financial crisis has inflicted hardship on a population that does not like to face harsh reality."
George Soros, The Japan Times japonês, 8 de Novembro de 2009 (http://search.japantimes.co.jp/cgi-bin/eo20091108a1.html)
No dia 1 de Dezembro de 2009 também Barak Obama tornou público o seu plano de enviar quase 30 mil soldados para o Afeganistão. E a dupla data do 1 de Dezembro de 2009 não o é naturalmente por acaso, porque a nação que ainda continua a liderar o mundo neste momento está virada para a necessidade de uma nova ordem mundial com a China, Rússia, Índia, Irão, Brasil e UE. Depende de uma verdadeira cooperação como nunca na sua história para representar um mundo a que quer apresentar oficialmente os seus poderes executivos de valores de cosmopolitismo, liberdade, justiça e igualdade de direitos, apesar de todos sabermos que diplomaticamente a luta de poder e interesses é quase toda travada nos bastidores políticos sorridentes. A política internacional não pode evoluir com sorrisos diplomáticos cosméticos, Barak Obama incluído. O surgimento de "outros jogadores" não quer mais a predominância de uma potência mundial unilateral. Isto significa assumir o risco de um mundo mais complexo, mas mais multilateral, e não está claro que tipo de valores que temos de assumir como universal para agir. Não deveriam querer ser universais. Culturas diferentes podem viver em tempos históricos diferentes e os relógios podem estar batendo de forma diferente em diferentes partes do mundo. Esta é a época de grandes transformações. Será perigoso se os EUA não assumirem a necessidade de uma nova ordem mundial na qual estejam mais dependentes de uma verdadeira parceria e partilha de interesses desafiante e na necessidade de um engajamento mais real e mais profundo de e debate aberto que não evite conflitos e nem fique refém da política correcta de ideais – uma das razões pelas quais os partidos de esquerda estão desde há algum tempo constantemente perdidos na legislação nacional e na da EU, nas eleições parlamentares. É preciso agir pragmaticamente e reflectir bem as consequências das acções. Já não é simplesmente suficiente criticar a UE como demasiado mercantilista, mesmo sendo urgente uma maior massa crítica. A UE é um facto que devia ir mais longe nos seus trabalhos sobre uma visão da Europa e participar mais activamente do que no passado na construção e na cooperação de uma nova ordem mundial, que é real, multilateral, conflituosa e corajosa. Coragem de pensar com sua própria cabeça, para observar com seus próprios olhos, sentir com o seu próprio coração e agir com as próprias mãos. Coragem é o que eu vejo na visão do meu filho, e eu sei que não será fácil de agir, de sentir e de pensar com essa visão, uma vez que necessita muitas mais pessoas a fazê-lo.
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