| Israel desafia Estados Unidos |
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| Terça, 16 Março 2010 16:24 | |||
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Insistência israelita na colonização inviabiliza iniciativa diplomática de Washington
AFP
Os Estados Unidos cancelaram por tempo indeterminado a deslocação do seu enviado especial ao Médio Oriente enquanto Israel não anunciar o cancelamento da fase de colonização do sector árabe de Jerusalém decidida durante a recente visita do vice-presidente norte-americano à região. A instabilidade alastrou nas últimas horas em Jerusalém Leste, onde os palestinianos antevêem nova onda de desalojados e de expatriados. O governo israelita respondeu com a repressão e a comunicação social fala em "terceira Intifada". O cenário é considerado dos mais graves nas relações entre os Estados Unidos e Israel, a aliança mais forte a nível mundial. Comércio e escolas árabes de Jerusalém fecharam espontaneamente, centenas de palestinianos tomaram as ruas protestando contra os novos projectos de colonização do sector ocupado de Jerusalém. Há uma semana, em plena visita do vice-presidente dos Estados Unidos, Josef Biden, à cidade, as autoridades municipais israelitas divulgaram um plano de construção de mais 1600 casas na parte Leste, iniciativa que fez fracassar a visita e congelou imediatamente o desenvolvimento da nova iniciativa diplomática do Departamento de Estado - as negociações indirectas. O cancelamento da visita do enviado especial norte-americano George Mitchel é consequência natural desse congelamento uma vez que Israel rejeitou os pedidos de Washington para anunciar a suspensão da anunciada etapa de colonização. O primeiro ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apresentou desculpas apenas pelo momento do anúncio mas não pela decisão de prosseguir a construção, apesar de uma conversa telefónica de 43 minutos com a cretária de Estado Hilary Clinton, de acordo com a comunicação social dos Estados Unidos. Avigdor Lieberman, o ministro dos Negócios Estrangeiros israelitas, comentou a situação dizendo que o pedido norte-americano "não é razoável no que nos diz respeito" pelo que Washington deverá baixar o tom das suas posições uma vez que uma escalada de tensão não interessa a nenhuma das partes. Os Estados Unidos continuam a aguardar uma resposta: "avaliaremos as implicações da situação logo que tenhamos uma posição de Israel em relação às nossas preocupações", declarou PJ Crowley, porta-voz do Departamento de Estado. A colonização dos territórios palestinianios ocupados, além de ilegal é considerada o mais poderoso obstáculo a uma solução de paz uma vez que inviabiliza qualquer potencial acordo. A construção de casas, bairros, aldeias e cidades fortificadas nos territórios onde deverá assentar, segundo parecer internacional praticamente unânime, o futuro Estado Palestiniano torna este objectivo praticamente impossível de concretizar. Segundo a imprensa israelita, o plano anunciado durante a visita de Biden não se limita às 1600 casas: prevê um projecto de 50 mil a desenvolver em dois anos. Cerca de 180 mil israelitas vivem actualmente no chamado "anel" de colonatos que cerca Jerusalém Leste e corta praticamente todas as possibilidades de comunicação entre este sector da cidade e a Cisjordânia. Ainda durante a visita de Biden, Israel anunciara também a construção de mais de cem casas na Cisjordânia. Estes factos impediram, de facto, o arranque das negociações indirectas. Em Ramallah, a Autoridade Palestiniana declarou imediatamente que não participará no processo enquanto Israel não anunciar o cancelamento da colonização, problema que já foi o principal responsável pela suspensão das negociações directas. No actual cenário político israelita é difícil avaliar se o recurso à prática colonizadora funciona como o pretexto habitual para Israel protelar o processo de paz enquanto avança na anexação dos territórios palestinianos ou se Netanyahu está efectivamente pressionado pelo facto de o seu governo dependender do apoio da direita mais extrema e dos fundamentalistas religiosos. De qualquer modo, toda a classe política israelita que tem exercido o poder tem alimentado, sem excepção, o processo de colonização. Netanyahu declarou, a propósito, que a construção de casas para israelitas em Jerusalém Leste durante mais de 40 anos "em nada feriu os palestinianos". Este assunto já esteve também na génese do braço de ferro que existe entre Netanyahu e Obama desde que este tomou posse. O primeiro ministro israelita nunca correspondeu aos pedidos do presidente norte-americano para parar a construção israelita nos territórios palestinianos argumentando que se trata de um processo "de crescimento natural" que o governo não pode travar. Durante o ano que já leva este braço de ferro ficou sempre a sensação de que a política de Washington para o Médio Oriente ficou presa na estratégia israelita, até que a ideia das negociações indirectas parecia poder alterar a relação de forças. De momento, o governo israelita continua com a iniciativa e mesmo a suspensão da viagem de George Mitchell, apesar das turbulências diplomáticas que representa, não desagrada a Netanyahu uma vez que não tem que se envolver para já em quaisquer negociações com os palestinianos. O confronto diplomático entre Israel e os Estados Unidos tem deixado em segundo plano as sucessivas polémicas em torno da visita do presidente brasileiro Lula da Silva a Jerusalém e aos territórios palestinianos. Sectores governamentais chefiados pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, boicotaram a presença de Lula alegando que este desrespeitou o protocolo ao não visitar o túmulo de Theodor Herzl, considerado "o pai" da doutrina sionista. O aparecimento desta visita no protocolo da viagem do presidente brasileiro causou surpresa uma vez que não tem constado das agendas das visitas de quaiquer chefes de Estado a Israel. A diplomacia israelita alegou que Lula iria inaugurar esse acto a formalizar a partir de agora. Por detrás da animosidade em relação a Lula está, sobretudo, o facto de o Brasil sob a sua gestão ter assumido relações internacionais independentes que incluem também o Irão, país que é o alvo de toda a estratégia israelita actual.
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