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The Week

Miguel Portas

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The Guardian, 14/05/2012

Os gregos são alérgicos à austeridade

Marisa Matias

E a Grécia aqui tão perto

Há alguns meses escrevi sobre a torrente que é o texto "A mais estranha das criaturas", do poeta Nazim Hikmet. Diz-nos ele: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar".


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O "inferno social" na Grécia

A Coligação de Esquerda Syriza adquiriu em 6 de Maio, nas eleições gregas, um protagonismo europeu à medida da intensa actividade de luta e mobilização contra a austeridade que há anos desenvolve na Grécia. Atingida por uma campanha de desinformação e manipulação devido à expressão política que conseguiu dar à revolta dos gregos contra a autocracia fundamentalista neoliberal europeia, Syriza tem um programa, um projecto, representa uma alternativa ao "inferno social". Alexis Tsipras, presidente do grupo parlamentar da Syriza expõe essa realidade numa entrevista ao Guardian com versão em português em www.esquerda.net

Da internet à Praça Tahrir PDF Versão para impressão
Segunda, 28 Fevereiro 2011 12:16

 

Ahmed Maher e Mohammed Adel explicam como nasceu uma revolução
EgiptoAhmedAdel

Ahmed e Adel no Cairo com a eurodeputada Marisa Matias (foto Nelson Peralta)

 

Por Nelson Peralta, no Cairo, Egipto 

O Egipto fervilha. O ditador caiu mas muitos dos seus antigos governantes mantém-se no poder e o exército conduz a transição. No meio deste processo entrevistamos activistas do Movimento 6 de Abril, um dos movimentos na base da agitação popular no Egipto.
A cada minuto o telemóvel toca. Ahmed Maher, engenheiro civil de 30 anos, vai rejeitando as chamadas durante a conversa. Por vezes interrompe por algum telefonema mais importante. Este é o retrato do ritmo frenético que se vive no Egipto e da importância que as novas tecnologias de comunicação tiveram na revolução. Ahmed faz parte de uma geração que não via grande perspectiva de futuro no país e que é movida por uma enorme vontade de mudança.

Uma greve geral que começou na internet
Em 2005 começaram a surgir vários movimentos da juventude pela mudança. Ahmed contactava regularmente com os comités locais de trabalhadores e escrevia online sobre as condições de trabalho, as greves e as lutas que encontrava. Foi um dos activistas que convocou um greve geral nos grupos do Facebook. A iniciativa teve um sucesso impar, a cada dia aderiam três mil pessoas. “Antes usava o Yahoo!Grupos e o blogger. O facebook era novo e popular e, acima de tudo, era a única destas ferramentas imune ao controlo governamental. Passou assim a ser a nossa ferramenta”, relata. Mas não esquece a preciosa ajuda do Ministro do Interior que fez uma declaração sobre o movimento. Esse ataque governamental tornou a iniciativa imensamente mais conhecida do que aquilo que as acções do próprio grupo tinham conseguido até então.
O apelo surtiu efeito e a greve geral realizou-se a 6 de Abril de 2008 com um enorme sucesso. A luta iniciada na internet tinha passado para o mundo real. Na sequência do protesto, vários membros do grupo são presos e uma activista espancada mas a agitação social permaneceu. “É um movimento jovem que fala a mesma linguagem dos jovens. Usa o facebook, o twitter, as SMS. O protesto não é tradicional, os jovens vão para a rua cantar, fazem conferências e festas na rua. Tiraram membros da internet para o mundo real. Todos queriam conhecer a cara uns dos outros e para nos organizarmos era preciso esse contacto”. É assim que Ahmed retrata a evolução do movimento. As suas actividades levaram a que em Julho desse ano tivesse sido preso. Durante essas duas semanas sentiu uma intensa tortura psicológica.


Da Tunísia ao Egipto, foi possível!
No início as manifestações juntavam mil a três mil pessoas. Surge contudo um imprevisto. “De repente houve uma revolução na Tunísia. Passou a haver a percepção de que afinal era possível”. A partir daí a participação nas manifestações foi crescendo, até à revolução. Estava em curso um protesto no facebook, organizado por vários movimentos, contra o Ministro do Interior. Mas o que começou como uma luta contra as políticas de repressão, tornou-se quase inadvertidamente numa contestação a todo o regime de Mubarak.
Em Dezembro passado criaram o Movimento 6 de Abril, com um grupo facebook que juntava ainda mais pessoas que o anterior grupo da greve geral. A partir de 15 de Janeiro realizaram reuniões diárias de cinco horas onde desenharam mapas das ruas. Na internet publicaram os pontos, cinco no Cairo e dois em Alexandria, de onde partiriam as marchas para a concentração, no caso da capital na Praça Tahrir. Contudo, não se limitaram a esperar. Duas horas antes do inicio do protesto foram para os bairros pobres apelar à participação. A polícia já estava à sua espera nos locais marcados, mas não esperava que cada marcha juntasse mais de 20 mil pessoas. Ao verem a polícia a retirar perante a imensidão de gente perceberam que o protesto ia ser bastante eficaz. Perceberam que estavam perante uma revolução quando viram milhares e milhares de egípcios de todas as idades a juntarem-se em Tahrir. Nesse dia, 25 de Janeiro de 2011, ocuparam a praça onde ainda hoje continuam. Durante a noite a polícia atacou com violência, muitos membros foram presos. Milhares estavam em fuga procurando esconderijo nas áreas pobres. Este foi um ponto de viragem. “A partir daqui todas as pessoas passaram a agir sozinhas, sem a organização. Todos queriam participar”. Pelo meio o regime ainda cortou a internet e as ligações telefónicas mas era demasiado tarde, Mubarak caia 18 dias depois.


Uma prioridade: a democracia
Para Ahmed Maher “as exigências políticas, sociais e económicas são apenas uma”, não se tratam de coisas diferentes. Desconfia da ordem vigente, “não tenho ideia do que o exército quer. Os movimentos pediram muitas medidas mas o exército ignorou” explica, referindo que a táctica dos militares é ir adiando os assuntos de reunião em reunião sem qualquer decisão. Não se sente representado nas actuais forças políticas e pede que se criem “novos partidos e novas organizações”.
Mohammed Adel, também activista do movimento 6 de Abril e prestes a entrar para o serviço militar, junta-se à conversa enquanto espera a ida para uma importante manifestação que os aguarda a minutos e metros de distância. Ambos têm bem definidas as suas prioridades políticas para o momento. Todas passam pela democratização do Egipto.
Em primeiro pretendem uma mudança imediata do governo que continua com muitos membros do anterior governo de Mubarak e com vários tecnocratas fieis ao regime. Querem que o exército deixe de comandar o período de transição, defendendo que esse papel passe a ser desempenhado interinamente por um Conselho Presidencial composto por dois juízes e um militar. A abolição da lei de emergência e a libertação dos presos políticos é outra das suas exigências imediatas. Pedem ainda a dissolução do NDP, o partido do regime, assim como dos seus mecanismos de dominação. Por fim, pedem uma reorganização do Ministério do Interior.
E com isto partiram para a Praça Tahrir. Tinham uma revolução para concluir.