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Conferência sobre pobreza infantil no âmbito do Ano europeu contra a pobreza - Marche-en-Famenne, Bélgica http://europa.eu/eucalendar/eventpopup.shtml?eventId=1284130

 

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Epístola de Bento XVI aos irlandeses PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Produzido por José Goulão   

Papa  Bento XVI

 

Uma carta pastoral remetida aos bispos irlandeses é a resposta solene do Papa Bento XVI à explosão de denúncias de casos de prática de pedofilia e encobrimento de violações de menores em instituições da Igreja Católica em vários países do mundo. Vítimas consideram que o Vaticano "continua em negação" da tragédia.

 

 

Estados Unidos, Irlanda, Suíça, Áustria, Alemanha, Itália/Vaticano e Brasil são, para já, os países de onde partiram as informações que levaram o Papa a tomar esta atitude que comentadores eclesiásticos consideram invulgar e relevante mas que está longe de satisfazer as vítimas e as instituições que as representam. Andrew Madden, alvo de abusos sexuais nos Estados Unidos, deu a cara para afirmar que não lhe parece ser “uma carta pastoral o contexto adequado para responder a uma realidade de encobrimento e violações de crianças”, disse.

Na epístola aos bispos irlandeses, Bento XVI manifesta “vergonha e remorso” perante as situações que têm vindo a ser do conhecimento público, defende que os responsáveis por tais actos sejam conduzidos à justiça “diante de Deus e dos tribunais” e acusa os prelados da Irlanda de “erros grosseiros de julgamento e falhas de liderança”. Reconhece que desta maneira a Igreja irlandesa “perdeu credibilidade” embora, segundo escreveu, “seja difícil saber como reagir nestas situações”.

A carta foi lida em primeira mão em Armagh, na Irlanda do Norte, pelo cardeal patriarca Sean Brady, que há dias confessou publicamente a sua presença, em 1975, em sessões nas quais vítimas de pedofilia foram obrigadas a assinar garantindo que manteriam o silêncio sobre o assunto.

De acordo com três inquéritos governamentais realizados na República da Irlanda entre 2005 e 2009, foram detectados mais de 15 mil casos de abusos de menores entre os anos trinta e noventa do século passado cometidos por padres, frades e freiras em seminários, colégios religiosos e orfanatos.

O Papa considera na carta que a situação deve ser combatida “através do direito canónico e da colaboração com as autoridades civis” embora do seu país natal, a Alemanha, tenham surgido informações da Procuradoria Geral sobre as dificuldades colocadas pelo secretismo imposto pela Igreja ao desenvolvimento das investigações, uma vez que testemunhas e presumíveis acusados se refugiam nesse silêncio.

Em 2001, aliás, o cardeal Jozef Ratzinger, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no Vaticano (antiga Santa Inquisição), instruiu os bispos de todo o mundo, também através de uma epístola, para o manterem a par de todos os casos de pedofilia apurados em investigações da Igreja mas guardando rigoroso silêncio sobre o assunto, sob ameaça de excomunhão. Responsáveis do Vaticano têm afirmado, nos últimos dias, que esta orientação não é uma maneira de manter as situações detectadas fora do âmbito da justiça civil mas bispos irlandeses afirmaram que foi assim que entenderam as ordens do Papa.

Um porta-voz da organização irlandesa One in Four, que representa numerosas vítimas de abusos, comentou que a carta agora escrita pelo Papa “falha em assumir a responsabilidade do Vaticano por uma política deliberada da Igreja Católica aos mais altos níveis para proteger os agressores sexuais”. “Se a Igreja não reconhece esta verdade fundamental, continua em negação”, acrescentou.

No final do ofício religioso em que leu o documento papal, o cardeal Sean Brady pediu aos fiéis que rezem “para que a carta pastoral do Santo Padre seja o começo de um tempo de renascimento e esperança na Igreja irlandesa”.

Círculos do Vaticano temem, porém, que a situação actual seja apenas uma ponta de um volumoso novelo uma vez que o aparecimento de numerosas denúncias tem encorajado cada vez mais vítimas de sevícias clericais a revelar as situações que viveram e o modo como as autoridades religiosas as encobriram.

Um psiquiatra alemão disse que por várias vezes advertira os responsáveis da dioceses alemã então gerida pelo actual Papa de que um sacerdote ali colocado tinha um comportamento de pedófilo contumaz. O padre em questão foi então transferido para uma instituição onde continuou a trabalhar com crianças e a praticar abusos sexuais.

Nos últimos tempos tornaram-se conhecidos novos casos de situações comprometedoras para a Igreja Católica todas elas relacionadas com relações entre responsáveis eclesiásticos e jovens, desde uma rede de prostituição funcionando no interior do Vaticano a partir de um dos coros da Basílica de S. Pedro, a casos de pedofilia numa instituição coral durante muito tempo dirigida pelo irmão do actual Papa, a situações que se tornaram públicas na Suíça, em Viena – no interior do carismático Coro dos Pequenos Cantores – no Brasil, além dos Estados Unidos, onde o assunto explodiu há anos. As autoridades de Roma receiam que o movimento de revelação de situações chocantes envolvendo menores possa ter continuidade em igrejas do Sul da Europa, onde só o medo tem evitado o aparecimento de casos que se teme existirem em elevado número.

Além disso, o facto de os agressores sexuais nas instituições religiosas escaparem à justiça dos cidadãos para serem sujeitos a uma justiça paralela e fechada - “a de Deus” - desperta cada vez mais consciências perante uma situação aberrante em sociedades não-confessionais.

A posição oficial do Vaticano, transmitida por um assessor de comunicação pouco tempo antes de o Papa escrever a actual carta, é a de que existe “uma campanha contra a Igreja Católica”.

Essa conclusão baseia-se no facto de, segundo a mesma assessoria, os casos de pedofilia detectados no interior de instituições católicas entre os anos sessenta e noventa serem da ordem dos três mil, em escala menor, diz, do que os registados na sociedade civil. Daí a dedução dos mesmos responsáveis de que o caso não é grave, está controlado e é empolado para servir a tal “campanha”.

Uma “campanha”, sublinham os mesmos serviços, destinada, no fundo, a combater o celibato nas igrejas, mosteiros e conventos. De acordo com as mesmas fontes, não existe qualquer relação entre o celibato dos sacerdotes e a pedofilia, pelo que a situação é inamovível.

Até ao momento, os inquéritos governamentais efectuados na República da Irlanda têm servido sobretudo para dar uma ideia da extensão da tragédia. Ao determinar uma investigação no interior da Igreja irlandesa o Papa restringe o problema a um país, embora o Vaticano assegure que a carta pode ser lida noutros países; e ao acrescentar que os culpados devem ser julgados “diante de Deus e dos tribunais” não deixa muito claro de que modo vão harmonizar-se o secretismo ditado em 2001, não revogado, e a colaboração com as autoridades civis.

Alguns bispos irlandeses, ao que parece genuinamente afectados pelo “remorso” de que o Papa fala na missiva, decidiram resignar das suas funções. O Papa não aceitou e instou-os a continuarem nos seus postos. À primeira vista, além da epístola aos irlandeses nada mais de novo há a registar.

 

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