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Dez boas razões para não atacar o Irão PDF Print
Written by Redacção de The Week   

irao

 

Por Roger Cohen

 

Passou um ano desde que o Presidente Obama fez, em Teerão, uma revolucionária oferta do Noruz (ano novo comemorado no Irão a 21 de Março), envolvendo os dois países num respeito mútuo. Hoje, o Irão é um país diferente. Dividido, o regime está enfraquecido. Foi perturbado pelo movimento verde (nascido do protesto para a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad para a Presidência em Junho de 2009). Este movimento incarna a maior manifestação do poder do povo no Médio Oriente e é um exemplo para toda a região.

 

 

Mas os 31 anos de tensões que enfraqueceram as relações americano-iranianas ainda estão lá. Sarah Palin insta Obama a declarar guerra ao Irão se quer salvar a sua Presidência. E não é a única.

Não há nada de novo na visão americana de reduzir o Irão a uma abstração nuclear, confundindo os seus 70 milhões de cidadãos com uma ogiva nuclear no poder, que não está ciente da sua civilização - tudo isso com o único objectivo de fazer da Pérsia um peão eleitoral dos EUA e uma ameaça que exige o bombardeamento. Mas a opcão da guerra continua inconcebível; isso seria um desastre para os Estados Unidos e Israel. Assim, vale a pena aqui sublinhar, antes que o som dos tambores se faça ouvir na corrida eleitoral, dez verdades sobre o Irão.

1. Os ultraconservadores iranianos estão isolados. Estabelecer um diálogo com o Irão pode mudar o jogo e não é incompatível com o apoio do movimento verde; aliás, as duas políticas até se complementam. Obama deve denunciar a violenta onda de repressão que se seguiu à eleição. Deve apoiar o direito dos Iranianos de protestar contra o regime e tentar derrotar a psicose americano-iraniana por meio de negociações abertas. Um ano de compromisso levou-nos mais longe do que sete anos a infernizar este país membro do "eixo do mal" (de acordo com o ex-Presidente dos EUA George W. Bush).

2. A reacção iraniana a Obama tem sido irregular. Recordemos as negociações falhadas em Genebra, a 1 de Outubro de 2009, segundo as quais o Irão poderia confiar em países terceiros que enriquecessem urânio a um baixo teor para recuperar o urânio enriquecido a 20% (bem abaixo de um limiar militar) com o objetivo de alimentar um reactor de investigação médica em Teerão.

A falha deste acordo, vítima das divisões políticas no Irão, acompanha amargamente Obama e os seus principais assessores sobre o Irão, que continuam frustrados ainda hoje. A conclusão de um acordo teria criado espaço para negociações mais amplas. De acordo com o Irão, a ideia não está, no entanto, enterrada. A História leva-nos ao cepticismo, mas se o objetivo é remover o urânio enriquecido das mãos do Irão e colocá-lo em mãos seguras - do Japão, talvez, ou da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)-, serão exigidas provas de flexibilidade infinita.

3. A política de dissuasão é uma arma eficaz. Os EUA deveriam, tal como Hillary Clinton sugere, construir uma "cúpula de defesa" para os amigos do Golfo, alarmados com o programa nuclear iraniano. O comentário do Secretário da Defesa norte-americano, Robert Gates, sobre o Irão foi o seguinte: "a única forma de não ter um Irão “nuclearmente livre” é o governo de Teerão considerar que a posse de tais armas enfraqueceria a sua segurança". E a melhor maneira de conseguir isso, é reforçar o apoio militar para os vizinhos do Irão. Ali Khamenei, o guia Supremo, é o guardião da revolução islâmica. A sua principal missão: a preservação. O Irão não construirá uma bomba se acreditar que o regime revolucionário será a primeira vítima.

4. As sanções não modificarão a política de Teerão. Elas continuarão a enriquecer os guardas da revolução (corpo paralelo ao exército), que controlam os canais através do Dubai inviabilizadores das sanções. Contribuirão, certamente, para economizar tempo para obter outras provas de compromisso. Diz-se que Obama acredita que as sanções são uma necessidade, tendo em conta a pressão do Congresso e de Israel, mas isso seria uma improvável mudança de rumo e Teerão vai-se movendo ao longo dessa necessidade de retaliação.

5. Atacar o Irão teria consequências bem conhecidas. Saddam Hussein fê-lo em 1980, cimentado a revolução teocrática de Aiatolá Khomeini através da união de vários grupos que formaram uma frente unida de defesa nacional. E como os EUA e a Europa forneceram armas ao Iraque durante esta guerra, e Saddam depois atacou os iranianos com gás, o ressentimento é profundo.

A geração de jovens oficiais presentes nessa guerra governa agora o Irão e constituiu a Nova Direita. Atacar as estruturas nucleares iranianas levaria o movimento verde à falência, a juventude iraniana à frustracão e a Direita à união, acelaria os esforços da sua corrida para a bomba e reforçaria o regime.

6. De acordo com a AIEA, o Irão suscita preocupações sobre um possível “presente ou passado, desenvolvimento clandestino de uma carga nuclear para equipar actividades relacionadas com mísseis". No entanto, os inspectores da Agência estão neste momento no Irão, a inspecção de instalações de Natanz continua a ser feita rigorosamente, tudo é assinalado em pormenor, o Irão assinou o Tratado de não-proliferação (TNP) e os EUA continuam a pensar que Teerão não decidiu fabricar armas nucleares. Há tempo ainda, pelo menos dois anos, para convencer o Irão a fazer o que o Brasil, a Argentina e a África do Sul fizeram antes dele.

7. Com a eleição de 12 de Junho de 2009, o Irão sofreu um verdadeiro terramoto. A onda de repressão brutal afastou milhões de iranianos do seu governo, criando uma situação que recorda a Polónia dos anos oitenta. Isso não significa que a mudança é iminente. Isso significa que a Teocracia enfrenta um povo que viu para além dela.

Se a agitação se espalha pelos sindicatos (muitos eventos organizados pelos sindicatos tiveram lugar nas últimas semanas), como em 1979, ou se se suscita a cólera do establishment religioso da cidade Santa de Qom, ninguém poderá prever o que vai acontecer. O Irão é hoje muito mais instável do que há um ano. Duvido que haja uma transição calma se Khamenei morrer aos 70 anos de idade.

O Ocidente tem uma dívida histórica para com o povo iraniano e não pode ceder aos seus impulsos punitivos. Que só reflectem a luta de um século para implementar uma forma de Governo representantiva. A sociedade iraniana é uma das mais promissoras do Médio Oriente, porque a luta entre a autoridade de Deus e o povo reproduz-se todos os dias. A maioria dos iranianos quer, acima de tudo, normalizar as relacões com o mundo.

8. Israel e Irão não são vizinhos. São estranhos, um judeu, e o outro xiita - num oceano de sunitas que é o Oriente Médio. Nunca lutaram um contra o outro. Partilharam muitas coisas, amigáveis relações diplomáticas no momento do xá e das alianças durante a década que se seguiu à revolução, quando Israel se juntou ao Irão contra o Iraque. A sua animosidade é feroz, mas não é inevitável.

Israel já está em guerra com os árabes, abrir uma nova frente de hostilidade contra o Irão seria desastroso. O Hezbollah e o Hamas fariam o pior de que são capazes. Ninguém no mundo árabe faria distinção entre Israel e os Estados Unidos. A segurança de Israel não ganharia nada; seria mais frágil do que nunca.

9. Nem a pacificação do Iraque nem a reconciliação do Afeganistão, nem qualquer apaziguamento entre israelitas e palestinianos pode acontecer sem intervenção do Irão. Um Irão isolado é uma potência perturbadora. Mas um Irão integrado pode ajudar a América em várias frentes, ultrapassando o seu ímpeto revolucionário e violento. Uma mudança que seria tão radical como a reconciliação entre os EUA e a China que chocou o mundo em 1972.

10. O Irão é o Hotel Heartbreak original. Ele esmaga pessoas com sua tragédia. Pelo menos desde a década de 1930,  tem cambaleado entre uma ocidentalização forçada ("ocidentoxificação" para os seus críticos) e a instituição teocrática, que proibiu o hijab e, em seguida, tornou-o obrigatório, atingiu o pluralismo e depois esmagou-o, abrindo a sociedade para então a fechar.

Agora, em 2010, um movimento reformista, liderado, geralmente, por mulheres corajosas, tenta um percurso de equilíbrio — fiel à fé do xiita iraniano, mas também aos seus instintos republicanos — mas que tem sido suprimido violentamente, diante dos nossos olhos, num banho de sangue.

É tempo. É tempo do Irão encontrar o equilíbrio entre a fé e o pluralismo que enterrou há um século. É tempo de os Estados Unidos ajudarem o Irão a sair do seu isolamento — não com o chauvinismo de Palin, nem com punições sem sentido, ainda menos com bombas — mas com firmeza, aliada à diplomacia criativa e a um envolvimento sustentado.

Texto original: New York Times, Março de 2010

Tradução e adaptação:

Helena de Carvalho

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