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Miguel Portas

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Incerteza na Ucrânia PDF Versão para impressão
Segunda, 08 Fevereiro 2010 15:21

ucrania

Os resultados e as sondagens predizem o regresso de Viktor Yanukovych à presidência da Ucrânia. Os derrotados não aceitam.

Todas as informações conhecidas até ao momento vaticinam a vitória do candidato Viktor Yanukovych nas eleições presidenciais na Ucrânia, ainda que por margem pouco ampla. Apoiantes do eventual vencedor festejaram os resultados nas ruas de Kiev mas o desfecho político da situação ainda vai fazer-se esperar. A primeira ministra Yulia Timoshenko, candidata derrotada na segunda volta, recusa-se a aceitar o triunfo do rival e alega que em caso de "fraude eleitoral" pretende promover movimentações de rua e reactivar a chamada "revolução laranja" que a promoveu politicamente há seis anos. Ao contrário do que aconteceu em 2004, quando se gerou imediatamente um movimento de contestação logo foi anunciada a vitória de Yanukovych, desta feita não se registaram quaisquer sinais de protesto e de acusação de fraude eleitoral. Não foi tornado público quaquer caso de falsificação do sufrágio mas a senhora Timoshenko anunciou que está a realizar uma contagem paralela e tem especial atenção sobre cerca de mil assembleias eleitorais do leste industrial do país, área considerada afecta ao indiciado vencedor. Além da ausência de contestação, ao contrário de 2004 são agora as forças a afectas a Yulia Timoshenko que têm as alavancas de poder e o controlo sobre o processo eleitoral, tornando mais difíceis e improváveis as fraudes que funcionem em seu desfavor.

Os observadores internacionais que acompanharam as eleições no âmbito da da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) têm menos dúvidas sobre a legitimidade do acto do que a senhora Tymoshenko. Numa declaração publicada segunda-feira afirmam que "as eleições foram uma vitória para todos na Ucrânia" e "uma impressiva demonstração de eleições democráticas". A seguir a este parecer, instituições como o Conselho da Europa e a delegação da Assembleia Parlamentar da NATO instaram a candidata derrotada a aceitar os resultados e a considerar que "o mais importante é a estabilidade no país". Assen Agov, que chefiou a delegação parlamentar da NATO recordou que "normalmente, para bem do país, o candidato derrotado aperta a mão do vencedor"

O eventual regresso de Yanukovych, considerado um "pró-russo", ao poder em Kiev fecha um ciclo político caracterizado pelo desencanto popular com os dirigentes da chamada "revolução laranja". O presidente em exercício, Viktor Yushchenko, ficou pelo caminho na primeira volta das eleições presidenciais, reduzido a escassos cinco por cento. A sua então aliada e agora rival Timoshenko foi perdendo gradualmente prestígio durante a actuação como chefe do governo e delapidou as fortes hipóteses que chegou a ter de chegar a presidente com relativa facilidade.

Viktor Yanukovych conseguiu regressar à ribalta política depois das vicissitudes de 2004 beneficiando do cansaço da população com a longa crise económica e social em que o país está mergulhado e também do discurso unificador e não sectário destinado às comunidades russa e não-russa. Neste aspecto conseguiu retirar a iniciativa à sua rival, que continuou a manter em relação aos ucranianos russófonos o mesmo distanciamento de que se serviu para a sua estratégia política contra Yanukovych em 2004.

O favorito das eleições de acordo com os resultados parciais e as sondagens à boca das urnas convidou já a primeira ministra a demitir-se do cargo e a aceitar a derrota mas esta não está disposta a fazê-lo e ignora-se durante quanto tempo mais tentará explorar a tese da "fraude eleitoral" e com que argumentos a explicitará. Daí os vaticínios quanto a uma possível crise política num país que carece de acção governamental eficaz.

De acordo com as análises mais óbvias, a vitória de Yanukovych poderá significar uma viragem da Ucrânia em direcção à Rússia, designadamente para ultrapassar os problemas energéticos com que o país tem vivido nos últimos anos, correspondendo essa política a um afastamento em relação aos países ocidentais e à União Europeia. O discurso eleitoral do candidato foi mais abrangente do que seria de esperar, procurando captar apoios entre os sectores não-russófonos tirando partido da desilução com a prática governamental. Alguns analistas ucranianos admitem que Yanukovych como presidente possa mesmo querer passar à prática as temáticas de campanha porque a governação sectária não resultou e um eventual isolamento internacional, coincidindo com o alinhamento pela Rússia, só iria a gravar a crise que afecta o país.