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Diplomacia da União avaliou situação em Gaza PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quinta, 18 Março 2010 20:33

Gesto simbólico não garante alívio do "cerco medieval"

 

gaza01

                   Foto: Zoriah

 

Catherine Ashton, representante da União Europeia para a política externa, deslocou-se a Gaza para se inteirar da situação humanitária no território palestiniano bloqueado por Israel. Tratou-se de uma iniciativa da diplomacia da União isolada das práticas seguidas pelos Estados Unidos mas não se prevêem resultados concretos para lá do contexto simbólico. Ashton segue para Moscovo onde participará na reunião do "quarteto" para o Médio Oriente em pleno impasse negocial provocado por Israel.

A polícia israelita voltou a carregar sobre manifestantes palestinianos que se manifestavam quinta-feira em Jerusalém contra os projectos de reforço de colonização do sector. Registaram-se cerca de 20 feridos. O acréscimo de tensão na cidade decorre do anúncio proferido na semana passada pelas autoridades israelitas de que projectam construir 1600 casas no território ocupado de Jerusalém Leste no contexto de um plano a dois anos que prevê 50 mil apartamentos.

O anúncio congelou o processo de negociações indirectas lançado pelos Estados Unidos da América ainda antes de se ter iniciado. Tanto Washington como a Autoridade Palestiniana em Ramallah pediram a Israel para cancelar o programa de modo a que seja possível reactivar o chamado "processo de paz".

A representante diplomática da União Europeia não se avistou em Gaza com qualquer dirigente do Hamas, grupo que gere de facto o território. Durante a visita foi lançado um rockett a partir da Faixa de Gaza e que, segundo fontes israelitas, terá morto um trabalhador tailandês de um kibutz. Terá sido o primeiro engenho lançado do território em muitos meses, segundo as estatísticas das agências internacionais.

Catherine Ashton visitou um centro de distribuição de alimentos à população gerido pela ONU e declarou que “considera necessária a ajuda” à região. John Ging, chefe da delegação da agência das Nações Unidas para os refugiados (UNRWA), sublinhou que os habitantes de Gaza esperam da visitante europeia um esforço para conseguir um abrandamento do cerco israelita ao enclave. “Mil dias e mil noites de cerco medieval é mais que muito; é uma vergonha, uma desgraça”, disse.

Praticamente na mesma altura da visita da dirigente da União Europeia os Estados Unidos anunciaram a imposição de sanções contra o Banco Nacional Islâmico e a TV Al-Aqsa por terem, em Gaza, supostas ligações ao Hamas.

O "quarteto", entidade informal associada às negociações do Médio Oriente e que se tem caracterizado pelo fracasso permanente das suas iniciativas, reúne-se em Moscovo para analisar a situação da iniciativa de negociações indirectas. É constituído por Estados Unidos, ONU, União Europeia e Rússia e tem como representante o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair. Uma das iniciativas do "quarteto" foi a elaboração do chamado "roteiro para a paz", desde logo desrespeitado por Israel por se recusar a cumprir o pressuposto básico de suspender a colonização dos territórios palestinianos. Espera-se que o “quarteto” dê o seu apoio à diplomacia norte-americana embora numerosos analistas considerem praticamente impossível que consiga contribuir para a suspensão do processo israelita de colonização dos territórios palestinianos.

A reunião de Moscovo decorre num ambiente que começou por ser de alguma crispação entre Israel e os Estados Unidos mas que tem vindo gradualmente a atenuar-se através de declarações contemporizadoras dos principais dirigentes norte-americanos, sem que o governo de Israel altere a sua posição. No momento em que os Estados Unidos declararam oficialmente que não existiam condições para as negociações indirectas enquanto Israel não anunciasse o cancelamento da construção em Jerusalém Leste a secretária de Estado Hilary Clinton acompanhou essa posição com a reafirmação do compromisso norte-americano com a "segurança de Israel". O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comentou o estado actual das relações com Israel afirmando que “os amigos por vezes têm desentendimentos”. Fê-lo algumas horas depois de Hagai Ben-Aritz, cunhado do primeiro ministro de Israel, lhe ter chamado “anti-semita”. Tal como fizera com as novas construções em Jerusalém, afirmando que não tinha conhecimento de que o anúncio iria ser feito, Benjamin Netanyahu distanciou-se das palavras do seu familiar manifestando “profundo apreço” pelo compromisso de Obama “com a segurança de Israel”.

O próprio anúncio de sanções ao banco e à TV de Gaza é interpretado como mais um passo de Washington para aliviar o clima com Israel.

Apesar da mudança de tom dos principais dirigentes norte-americanos e da iminência da reunião do “quarteto”, a posição oficial do governo israelita é a de manter os anunciados projectos de reforço da colonização.