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Biden e Parlamento Europeu embaraçam Israel PDF Versão para impressão
Quarta, 10 Março 2010 18:59

biden01

  Getty Images Europe

 

O vice-presidente dos Estados Unidos e o Parlamento Europeu tomaram quase simultaneamente atitudes invulgarmente críticas em relação a Israel devido a comportamentos assumidos por este país nos territórios palestinianos ocupados. Joseph Biden pronunciou-se contra a colonização dos territórios, incluindo Jerusalém Leste; o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre o relatório Goldstone relacionado com o assalto a Gaza, documento que reconhece violações do direito internacional humanitário cometidas pelo Estado judaico.

Kyriacos Triantaphylides, deputado grego do grupo da esquerda unitária (GUE/NGL) no Parlamento Europeu, regozijou-se com a posição da câmara em relação ao relatório Goldstone. "A aprovação da resolução comum sobre a aplicação do relatório Goldstone assinala o impacto do documento sobre o processo de paz no Médio Oriente. Pela primeira vez uma resolução votada no Parlamento Europeu reconhece as violações do direito humanitário internacional cometidas por Israel", disse o eurodeputado.

O relatório Goldstone apresenta provas evidentes das violações do direito internacional cometidas pelas forças israelitas durante as operações militares de 2008 e 2009 nos territórios palestinianos. O grupo GUE/NGL saúda o documento e reclama a adopção imediata das conclusões pelos Estados membros e a aplicação das suas recomendações. "Exigimos igualmente que não haja qualquer reforço do acordo de associação UE-Israel em virtude das violações cometidas por Israel", sublinhou o eurodeputado grego.

Em Ramallah, onde se avistou com o presidente e o primeiro ministro da Autoridade Palestiniana, o vice-presidente dos Estados Unidos acompanhou o presidente palestiniano Mahmud Abbas na conferência de imprensa em que este exigiu a suspensão da colonização dos territórios palestinianos. "Chegou a hora de fazer a paz com base na solução de dois Estados"", disse Abbas. Joseph Biden pediu a Israel que se abstenha de acções que possam perturbar o ambiente no momento em que se desenvolvem esforços para iniciar negociações indirectas com mediação de Washington e assegurou a Mahmud Abbas que os Estados Unidos defendem a criação de um "Estado palestiniano viável" no contexto da coexistência pacífica de dois Estados na Palestina. Horas antes, Joseph Biden emitira um comunicado em termos invulgarmente duros de um alto dirigente norte-americano em relação aos aliados israelitas. "Condeno a decisão do Governo de Israel de avançar com o projecto de construção de novas habitações em Jerusalém Oriental", afirmou o vice-presidente dos Estados Unidos.

A reacção forte de Biden deve-se ao facto de o governo israelita não hesitar em anunciar novos actos de colonização no momento em que ele próprio, como enviado de Barack Obama, assume um envolvimento directo nos esforços diplomáticos para lançar negociações indirectas entre as duas partes em conflito. A colonização dos territórios palestinianos, incluindo Jerusalém Leste, é um dos mais sensíveis focos de conflito e foi a insistência israelita nessas práticas que levou à suspensão das negociações directas conhecidas por processo de paz do Médio Oriente..

Israel anunciara a construção de 112 casas novas num colonato da Cisjordânia horas antes de Biden chegar a Jerusalém, facto que levou a Autoridade Palestiniana a por imediatamente em causa a boa-fé com que a parte israelita estaria no processo. A seguir, quando Biden estava reunido com o próprio primeiro ministro Benjamin Netanyahu a Comissão de Planeamento do Distrito de Jerusalém aprovou a construção de 1600 casas em Ramat Shlomo, um colonato ultra-fundamentalista erguido ilegalmente no sector ocupado de Jerusalém, violando o direito internacional.

O vice-presidente norte-americano foi informado do que estava a acontecer e acabou por chegar com cerca de hora e meia de atraso ao jantar em sua honra oferecido pelo chefe do governo israelita depois de ter ponderado não comparecer, segundo a imprensa israelita.

O chefe do governo da Autoridade Palestiniana, Salam Fayyad, considerou depois em Ramallah que a atitude do governo israelita foi uma "falta de consideração" para com o vice-presidente dos Estados Unidos

A imprensa israelita afirma que Netanyahu se desculpou perante o seu hóspede, alegando que não tinha conhecimento de que a comissão municipal iria anunciar a decisão. O vice-presidente dos Estados Unidos, também segundo a imprensa israelita, esteve renitente em aceitar este tipo de justificação uma vez que o que estava em causa não era o momento do anúncio mas a própria insistência na colonização, ilustrada também pela decisão de avançar com mais 112 casas na Cisjordânia.

Por exigência do primeiro ministro, o ministro do Interior, Eli Yishai, pediu publicamente desculpas através da rádio dizendo-se incomodado com "a perturbação que o assunto" provocou. Yishai acrescentou que a aprovaçãpo de construções é um "assunto rotineiro" de que não é informado directamente pelas comissões municipais. Esta versão foi considerada ainda menos diplomática que os anúncios anteriores porque demonstra até que ponto as autoridades israelitas encaram a colonização como um assunto de gestão corrente a níveis intermédios. Um editorialista qualificou o comportamento do ministro como uma "emenda pior do que o soneto" porque deixou claro que as autoridades israelitas tratam como "assunto rotineiro" uma questão que é fulcral para o processo de paz, o que não augura nada de bom para as negociações indirectas. A oposição israelita de Tzipi Livni defendeu a apresentação de uma moção de censura contra o governo no Parlamento devido à falta de oportunidade dos anúncios de novos actos de colonização. A  oposição não se opõe à questão de fundo, uma vez que também apoia a criação e ampliação de colonatos.

Joseph Biden discursa quinta-feira na Universidade de Telavive deslocando-se depois a Amã antes de regressar aos Estados Unidos. Jornalistas que o acompanham na viagem interrogam-se sobre as consequências que a condenação feita pelo vice-presidente norte-americano do comportamento do governo de Netanyahu poderá ter. Washington foi mais longe do que é habitual na crítica, ficando por saber se irá mais longe do que é habitual nas consequências ou se a questão será sacrificada, como sempre, aos interesses estratégicos israelo-norte-americanos.